Cor como espelho da solidão e pertencimento.

Faces Ocultas acompanha a jornada de um catador de lixo mascarado que vive à margem da sociedade. Seu cotidiano é mergulhado em uma rotina cinza, monótona e emocionalmente distante, até que um encontro inesperado transforma completamente a sua percepção de mundo.

O filme é um curta-metragem dirigido por Gabriel Petit, realizado como Trabalho de Conclusão de Curso em Produção Audiovisual na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Foi gravado com uma BMPCC 4K, utilizando lentes analógicas, e finalizado inteiramente no DaVinci Resolve, com workflow em DaVinci Wide Gamut (DWG) e o LUT Kodak 2383 D65 nativo do software aplicado ao longo de todo o grading.

O Color Grading como Extensão Narrativa

Desde o início, o color grading foi pensado para caminhar junto ao estado emocional do personagem principal. A narrativa visual é dividida esteticamente em duas partes: pré-mascarada e pós-mascarada, refletindo, respectivamente, os momentos de isolamento e de conexão do protagonista com o mundo ao seu redor.

Parte 1: Pré-Mascarada — O mundo frio e desbotado

Na primeira metade do filme, o objetivo principal era amplificar o sentimento de solidão e deslocamento do protagonista. Através da saturação seletiva, todas as cores foram propositalmente atenuadas, com exceção dos amarelos, que se destacam como únicos elementos de vida em um ambiente que o rejeita.

A temperatura de cor foi reduzida, reforçando uma paleta acinzentada e azulada, que domina os ambientes externos e espelha a frieza emocional da cidade. Essa atmosfera gelada faz com que o protagonista pareça ainda mais um corpo estranho, alguém que não pertence àquele cenário.

Cena de O Balão Vermelho (1956), de Albert Lamorisse

A estética foi inspirada no clássico O Balão Vermelho (1956), de Albert Lamorisse — onde um único elemento colorido contrasta com a neutralidade do mundo ao redor. A proposta aqui, no entanto, foi intensificar ainda mais esse contraste, usando o amarelo como símbolo do personagem, e o restante do mundo como um espaço sem alma.

Durante esse trecho do filme, existem momentos de ruptura emocional, como cenas de dança, arte e música, que ganham temporariamente mais cor e temperatura, representando lampejos de esperança e o papel da arte como fuga e respiro em meio ao isolamento.

Parte 2: Pós-Mascarada — O calor do pertencimento

A virada visual acontece quando o protagonista encontra outra figura mascarada. Esse ponto de inflexão marca o início da segunda parte do filme e vem acompanhado de uma mudança estética significativa.

A paleta de cores passa por uma saturação mais elevada e progressiva, os tons alaranjados e quentes começam a dominar a cena, e a temperatura de cor aumenta, criando um sentimento de acolhimento e conforto.

Elementos como glow e halation foram aplicados com sutileza para trazer uma aura onírica ao momento, como se a realidade ganhasse um leve véu de sonho. Esses efeitos reforçam visualmente a transformação emocional do personagem, que, após tanto tempo à margem, encontra finalmente pertencimento e calor humano.

Conclusão

O trabalho de cor em Faces Ocultas não apenas constrói uma estética visual coerente com a proposta narrativa, como também funciona como extensão emocional da trajetória do personagem. O uso cuidadoso de saturação e temperatura reforça a passagem de um mundo de frieza e distanciamento para um lugar de conexão, arte e vida compartilhada.

Esse estudo de gradação foi possível graças a um processo colaborativo com o diretor, referências bem definidas e um workflow que buscou preservar ao máximo a estética analógica desde a captação até a finalização.


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